Como a cannabis medicinal — a “maconha” — pode contribuir para a saúde do trabalhador informal
Atualizado: há 2 dias
Por: Raisa Pereira Gaia
Relatos de trabalhadores do Movimento unido dos camelôs (MUCA) revelam dores, ansiedade e sofrimento relacionados ao trabalho e abrem espaço para discutir a cannabis como possibilidade complementar de cuidado.

É possível que os humanos tenham cultivado maconha "cannabis medicinal" há mais tempo do que qualquer outra planta. Seu cultivo para obtenção de fibras e remédios data de pelo menos 12 mil anos. Os primeiros relatos escritos surgiram na China antiga, onde o conhecimento botânico é passado de geração para geração, sendo usada para dores, náuseas, enxaqueca, insônia, doenças de pele, esclerose múltipla, distúrbios compulsivos, estresse e mais doenças em estudo.
“Eu durmo, eu como bem, eu penso melhor, me faz bem, me faz feliz, me faz ficar tranquila.”
A fala é de Tatiana Aparecida de Jesus, trabalhadora do Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), ao contar sua experiência com a cannabis. Para ela, a substância faz parte de uma estratégia própria de cuidado e produz efeitos que percebe no cotidiano, inclusive para enfrentar as demandas do trabalho.
“Eu trabalho nela como antidepressivo, se tenho que resolver alguma coisa, eu uso, fico bem, para trabalhar. Então me faz bem como antidepressivo”, relata.
O tema ganha outra dimensão quando colocado em diálogo com a pesquisa de Thaís Lisboa Soares, Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora camelô no município do Rio de Janeiro: o saber do camelô sobre a sua saúde, desenvolvida no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Trabalhador da Fiocruz. O trabalho buscou compreender os riscos e agravos que os próprios camelôs identificam e relacionam aos seus processos de trabalho. Ser camelô significa trabalhar muitas vezes sob condições que vão muito além da atividade de venda. A pesquisa de Thaís Soares mostra que os trabalhadores do comércio de rua enfrentam diferentes formas de nocividade relacionadas ao trabalho. A autora coloca no centro da análise questões como violência, sofrimento e as condições concretas nas quais os trabalhadores realizam suas atividades. O trabalho também evidencia que os camelôs não são apenas objetos de uma pesquisa sobre saúde. Eles são sujeitos que produzem conhecimento sobre o próprio processo de trabalho e sobre as formas de adoecimento que vivenciam.
A experiência de Tatiana não significa que a cannabis seja um antidepressivo para todos os trabalhadores, assim como todo medicamento. Trata-se do relato de uma trabalhadora sobre sua própria experiência.
Esse relato, porém, é importante porque produz uma pergunta para a Saúde do Trabalhador. A cannabis medicinal poderia ser considerada uma ferramenta complementar de cuidado para trabalhadores informais que apresentam determinadas condições clínicas, desde que exista avaliação e acompanhamento profissional? A resposta merece ser investigada.
E se o trabalhador também puder falar sobre cannabis?
A metodologia desenvolvida por Thaís Soares oferece uma pista importante.
Na pesquisa, os trabalhadores e trabalhadoras camelôs participaram da construção do conhecimento. A autora afirma que eles foram protagonistas do trabalho e que houve uma interlocução entre a produção científica e as falas dos trabalhadores nas Rodas de Conversa.
Uma discussão sobre cannabis e Saúde do Trabalhador poderia seguir esse mesmo caminho. Nesse processo, a cannabis deixaria de ser discutida apenas como uma substância proibida ou como um produto terapêutico e passaria a ser colocada dentro de uma discussão maior: o direito do trabalhador informal ao cuidado integral de sua saúde.
Como articular nas instâncias públicas para que os trabalhadores possam ter acesso a produtos derivados da cannabis para cuidados da sua saúde?
Uma possível articulação entre o Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), a Atenção Primária à Saúde (APS) e os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) poderia abrir um caminho para que trabalhadores informais tivessem acesso a um cuidado mais integral, inclusive quando a cannabis medicinal fosse considerada uma possibilidade terapêutica. O primeiro passo estaria no próprio território: o MUCA, que já exerce um papel de acolhimento e escuta dos camelôs, poderia identificar situações de dor, sofrimento psíquico, alterações do sono e outros agravos relacionados ao trabalho e encaminhá-las à rede de saúde. Na APS, o trabalhador poderia ser avaliado clinicamente e acompanhado de forma continuada, considerando não apenas o sintoma, mas também sua atividade laboral, suas condições de vida e a relação entre trabalho e adoecimento. Quando houvesse indicação clínica, a cannabis medicinal poderia ser discutida como uma das possibilidades terapêuticas, dentro das normas e da avaliação dos profissionais de saúde.
O CEREST, por sua vez, poderia atuar no apoio matricial e na articulação da Saúde do Trabalhador, aproximando a análise das condições de trabalho do cuidado realizado pela rede. Essa construção poderia ocorrer também por meio de Rodas de Conversa entre trabalhadores, MUCA, APS e CEREST, valorizando o saber produzido pelos próprios camelôs sobre seus corpos, suas dores e suas formas de cuidado. A questão, portanto, não seria simplesmente garantir acesso à cannabis, mas perguntar que tipo de cuidado o trabalhador informal precisa e como a rede pública pode responder a ele. A cannabis medicinal, quando clinicamente indicada, poderia fazer parte desse cuidado — mas não pode ser utilizada para que o trabalhador suporte condições que continuam produzindo adoecimento. Afinal, tratar a dor é necessário; transformar aquilo que produz a dor também.
Referências:
BRAVO, Maria Inês. Política de Saúde no Brasil. Revista Serviço Social e Saúde: Formação e Trabalho Profissional.
FLEURY-TEIXEIRA, Paulo. Uma introdução conceitual à determinação social da saúde. Saúde em Debate, 2009
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 20. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
SILVA, Alaiane de Fátima dos Santos; SANTOS, Iana Amora; SILVA, Eleutéria Amora da. Trabalhadoras ambulantes: vida, trabalho e direitos. Rio de Janeiro: CAMTRA, 2011.
SOARES, Thaís Lisboa. Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora camelô no município do Rio de Janeiro: o saber do camelô sobre a sua saúde. 2023. 106 f. Trabalho de Conclusão de Residência (Especialização em Saúde do Trabalhador) – Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Rio de Janeiro, 2023.




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