Como o SUS pode organizar uma atenção integral às pessoas que podem se beneficiar da cannabis medicinal?
Atualizado: 1 de set.

Por: Raisa Pereira Gaia
Inserir a cannabis medicinal nas políticas públicas de saúde pode ser pensado a partir do princípio da integralidade do cuidado do ser humano, não restringindo sua utilização ao fornecimento de um produto terapêutico, mas compreendendo-a como parte de um conjunto articulado de ações de cuidado. A integralidade envolve a articulação de ações preventivas e curativas, individuais e coletivas, nos diferentes níveis de atenção do SUS. Políticas públicas voltadas à cannabis poderiam integrar acesso, acompanhamento clínico, educação em saúde, capacitação dos profissionais, acolhimento, vínculo e participação dos usuários na construção das práticas de cuidado.
Temos uma mudança de ação quando quem faz uso do fitoterápico de cannabis passa de um lugar de observado pelos profissionais da saúde para a de sujeito do cuidado ou seja, o usuário irá dizer as reais necessidades e ser ouvido. A integralidade pressupõe o reconhecimento das demandas, necessidades e saberes dos usuários, valorizando sua autonomia e sua participação nas decisões relacionadas à saúde. A cannabis poderia ser incorporada aos projetos terapêuticos de forma individualizada, considerando não apenas a condição clínica, mas também o contexto social, familiar e territorial de cada pessoa.
Roseni Pinheiro, em seu artigo “Integralidade em Saúde”, oferece uma base muito interessante para pensar a cannabis não apenas como um recurso terapêutico. A ideia central seria: não criar uma política pública de cannabis centrada somente no fornecimento do produto, mas construir uma rede de cuidado em torno das necessidades dos usuários.
A rede poderia oferecer:
Avaliação individual;
Acompanhamento na Atenção Primária;
Orientação sobre uso e possíveis riscos;
Acompanhamento dos resultados do tratamento;
Encaminhamento para especialistas quando necessário;
Apoio psicossocial;
Educação em saúde para usuários e familiares;
Avaliação da situação social e econômica do usuário.
Numa avaliação individual uma pessoa pode precisar principalmente de controle de sintomas; outra pode precisar também de apoio psicossocial, fisioterapia, assistência social ou reorganização do tratamento. A cannabis, nesse modelo, seria uma ferramenta dentro do cuidado, e não o cuidado inteiro. Isso aproxima a cannabis daquilo que Roseni chama de cuidado integral.
A integralidade envolve três dimensões: organização de serviços, conhecimentos e práticas dos trabalhadores, políticas governamentais com participação da população. Devemos criar fóruns, conferências, rodas de conversa e conselhos locais para identificar as dificuldades reais enfrentadas pelos usuários em cada território e assim elaborar junto com os profissionais da saúde formas de acompanhamento das pessoas que fazem uso da cannabis nas suas variadas formas.




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